Um passo de cada vez

Quando completei trinta anos me achei o máximo! Balzaquiana, como dizia-se, passei a me considerar mulher de verdade.

Pisquei e vieram os quarenta e em um intervalo menor que este os cinquenta. E ai uma sensação estranha de já ter vivido quase tudo e não ter tirado o verdadeiro proveito da vida. E então o questionamento, o que seria o proveito da vida?

Aos vinte já era mãe, os planos de estudar tiveram que esperar e aos vinte e um me separei. Veio então  a dedicação  ao trabalho e a família, mais do que a mim mesma.

A decisão da separação precoce foi meu primeiro passo, que eu me lembre,  firme e determinado no sentido daquilo que eu “mão queria para minha vida” o matrimônio havia sido em  decorrência da gravidez e isto não é suficiente para uma relação a dois . Recordo-me de ter pensado: ou mudo meu rumo agora ou será tarde.

Historiazinha bem comum de se ouvir, não é mesmo? E cada uma de nós enfrentou de seu jeito, criou seu próprio filho e viveu sua vida e todas estamos bem.

Mas sempre há algo que lamentamos, algo que sonhamos ter realizado e que ficou para depois. Aos trinta e três anos, enfrentando depressão eu me via dentro de uma vida sem sentido e sem conseguir caminhar em direção nenhuma, sem amigos, sem sonhos.

A perda de peso decorrente do estado depressivo é diferente da anorexia ou da bulimia. Pessoas que sofrem destas doença não se alimentam porque simplesmente não conseguem. Uma das formas de depressão nos tira o apetite e o sono. Passam-se horas sem que consigamos ingerir qualquer coisa, as vezes nem água e quando tentamos é uma tormenta. Nada tem sabor e o ato de engolir é torturante. As noites tornam-se a exibição de um filme de mal gosto, onde o sofrimento e a dor são tudo o que conseguimos assistir.

Foram aproximadamente três anos para me recuperar da depressão, voltar a um peso razoável, refazer a vida e amigos.

Foi um passo a passo com pequenos estímulos. Neste período  eu morava em Barão Geraldo- Distrito de Campinas e como sempre gostei de filmes e sem tv a cabo,  eu era sócia de uma locadora de vídeo próxima de casa.

1º passo: Cancelei o contrato com a locadora minha vizinha e fiz um novo contrato em outra locadora em uma avenida de grande circulação em Campinas onde havia uma franquia de um famoso café anexo a ela. A estratégia era que a cada vez que eu tivesse que pegar um filme eu fosse obrigada a me vestir,  e não colocar chinelinhos,  para ir até lá e assim me arrumar, pentear os cabelo, e até passar um rimelzinho.

 2º passo: Passei a frequentar o café e  de alugar vídeo tornou-se um pequeno e prazeroso passeio. Eu me sentava a mesa, pedia um expresso passava algum tempo observando o movimento e as pessoas, como se comportavam, o que comiam, o que liam, algumas sozinhas, outras acompanhadas, com crianças e assim eu comecei a ver vidas. Depois atravessava a porta que ligava os dois ambientes e escolhia meu vídeo.

As pessoas me viam e eu as via. Com o tempo começamos a nos cumprimentar e até trocar algumas palavras e então me tornei visível ao mundo.

Assim as coisas foram caminhando. Pequenos atos, pequenas vitórias diárias e são elas que fortalecem.

Quando nos propomos a grandes desafios existe a possibilidade de falha e não há nada pior, para quem já não esta bem, do que falhar. Já pequenas vitorias vem com desejos de comemoração e nos dão a capacidade para pensar a enfrentar outros pequenos desafios.

E  assim  retomei os estudos e ingressei na faculdade de direito. Ao contrário do que pensam, nunca tive intenção de exercer a profissão de advogada. Eu estava querendo era salvar minha vida.

Óbvio que eu era bem mais velha que a turma, já estava com trinta e seis anos e a média era vinte. Mas lá eu fiz muitos amigos e com eles revivi a minha juventude, com tudo o que nos é direito neste período: festas, matar aula e ficar no bar, feriados na praia com a turma, colar na prova. Estas coisas banais e irreverentes me trouxeram a alma da jovem que havia se perdido de mim.

Então, voltando ao início quando me questionei sobre aproveitar a vida, se pensar em algumas coisas da juventude que a maternidade me privou, nesta nova fase  eu vivi, não há o que lamentar.  Digo mais, foi uma vitória porque partiu da decisão de querer mudar de comportamento, de abrir novos caminhos, de poder eu mesma escolher qual caminho tomar, mas principalmente de aprender sobre mim mesma.

“…Quem me vê assim cantando, não sabe nada de mim…” . A maior parte das pessoas me conheceu neste período pós faculdade, em festas, muitas delas em minha própria casa, com uma taça de espumante na mão e sempre rindo. Várias vezes cheguei a ouvir que parecia ter nenhum problema.

Sorrir e ser agradável com as pessoas não quer dizer que não estou buscando solução para meus problemas. Mas que eu tenho um lado dentro de mim que é capaz de sorrir.

 

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