Síndrome do pânico – avião

Faz algum tempo que não escrevo sobre nada e hoje me lembrei de um momento bem
difícil que tive que enfrentar anos atrás, o pânico.

A síndrome do pânico afeta um grande número de pessoas e de diversas formas.
Algumas não saem de casa a noite, outras não conseguem dirigir e uma forma bem
comum, ou mais visível é o medo de avião.

Deixei de fazer muitas viagens sonhadas na minha vida por medo de avião, até os meus
trinta e seis anos, quando decidi enfrenta-lo.
A concretização da síndrome se deu quando tive uma crise em um voo e duas
comissárias tiveram que me acalmar até que eu desembarcasse no aeroporto mais
próximo. Situação constrangedora, pois além do choro descontrolado que
provávelmente assustou os demais passageiros, ainda teve o atraso, pois tiveram que
procurar minha bagagem para que a mesma desembarcasse comigo. Enfim, perdi a
viagem e um pouco da fé em mim mesma. Foi desnorteante, me senti derrotada.

Mas o que era o pânico? Medo de morrer? Um pouco, mas o principal, no meu caso, era
sentir-me impotente em um espaço confinado onde eu não tinha o menor controle da
situação.

Vejamos da seguinte forma: quando dirigimos um veículo em uma auto estrada ou em
centros urbanos, temos a “falsa” crença de controle da situação, afinal são inúmeros
fatores de risco a nossa volta dos quais não temos absoluto meio de administrar a não
ser a nós mesmos.
Detectado este fator causal me restava o enfrentamento. E assim me aventurei. Mais
uma vez afirmo aqui para vocês, busquei ajuda profissional com psicólogo e psiquiatra.
O pânico raramente é administrado sem medicação própria, principalmente no início.
Outra coisa muito importante sobre medicação é que as pessoas a consideram um
demérito e não é nada disso! A medicina pesquisa há séculos para nos proporcionar
qualidade de vida e os ansioliticos estão ai para isto mesmo, desde que bem
administrados.

Então fiz minha primeira viagem a fim de vencer o pânico para Porto Seguro, super em
alta na época, era um réveillon e eu ainda fui sozinha- sempre fui muito independente!
Pois é, só e com muito medo, mas fui, era meu momento.
Partimos de Guarulhos e uns trinta minutos antes do embarque eu tomei o meu
ansiolítico. Mesmo assim durante o voo eu rezei muito, desesperadamente para ser
sincera, minhas mãos transpiraram, tive um pouco de taquicardia, meus lábios
amorteceram e chorei baixinho.
Chegamos no aeroporto e aquela famosa sensação de vitória, mesclada a zoeira da
medicação, me veio e eu experimentei a liberdade de ter escolhido meu destino e de tê-
lo alcançado. Aproveitei divinamente meu feriado de ano novo, sem pensar que na volta
e no que teria que enfrentar de novo.

Óbvio que o mesmo aconteceu no retorno, todas as reações do voo de ida, mas com um
pequeno diferencial. Ao nos aproximarmos de São Paulo- eu falei que era Guarulhos,
lembra-se? – já era noite e a cidade estava linda e eu encontrei um espaço dentro daquele
meu desespero para contemplar a beleza das luzes que deixavam a cidade tão dura em
um tom dourado. O medo havia dado uma brecha a contemplação e isto era um bom
sinal.

E assim fui caminhando, ou melhor voando. No início pequenas distâncias, voos de
quarenta minutos, uma hora, duas, nada é de repente em se tratando de temores tão
graves. Até que cheguei na Europa, meu sonho de adolescente. Me lembro bem de ter
chorado quando subi na Torre Eiffel, como eu desejara aquela viagem! Com remédios e
depois com uma taça de vinho , até que sem precisar de mais nada eu fui buscando
novas rotas.

Aprendi a prestar menos atenção no medo e observar mais a paisagem da janela, até
hoje não me enjoei de ficar olhando e também aprendi a apreciar a obra de engenharia
maravilhosa que é uma aeronave, afinal é ela, a engenharia que nos leva as alturas.
Sempre na decolagem fico atenta ao esforço daqueles motores vencendo a gravidade e
uma aterrisagem bonita também me chama atenção. Então como uma criança eu me
torno fã do comandante, dos engenheiros e de toda humanidade.
Matemática, física, mecânica, ciências exatas dominadas pelo homem em um raciocínio
brilhante e persistente, que tornaram nosso mundo menor, mais acessível, mais
conhecido, mais admirado e admirável. Passar a observar tudo isto tornou-se uma
maneira bem mais agradável do que focar nas minhas mãos trêmulas.

Vencer o medo de voar me agregou outras vitórias ao longo do tempo, afinal o que mais
poderia me deter? E assim fui vencendo os demais temores e me fortalecendo no sentido
de me conhecer melhor, respeitar minhas limitações, entender o mecanismo delas até o
momento adequado para enfrenta-las.

A grande e interessante vantagem deste crescimento pessoal é que ainda tenho muitas
limitações a vencer e isto torna minha vida desafiadora e motivada, sempre.
Até hoje carrego comigo nas viagens o ansiolítico, pois uma limitação a ser respeitada é
que o pânico é algo que controlamos e não derrotamos, portando jamais deve ser
subestimado, pois ele ainda reside dentro de nós. Não posso garantir que nunca mais
precisarei de remediozinho para enfrentar um voo.

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